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A batalha

Tentávamos uma reconciliação com o pai celestial em outra freguesia depois de sermos expulsos da paróquia de perto de casa pela Inquisição. Tudo porque destruímos um dormitório durante um retiro religioso, na Baía do Sol. Ok, ok, é possível que as coisas tenham fugido um pouco do controle.

O começo daquela ópera-bufa foi banal: um saco de água com mijo.

A bomba biológica, jogada pelo telhado do menor dos quartos, atingiu as meninas em cheio. Saíram de camisola ensopadas e enojadas. Gritavam encharcadas de uréia. Os namorados se enfezaram e a noite que era de reza e Legião Urbana no violão entortou para uma guerra cega e, por muito pouco, mortal.

O ambiente tranquilo rápido se converteu em campo de batalha e o improviso e o ódio engendraram armas letais em pouquíssimo tempo. Surgiram rojões, sabe nosso senhor de onde, que viraram morteiros, garfos se encaixaram como perfeitos socos-ingleses, facas de mesas se tornaram belos punhais, estoques brotaram do nada, varas de bambu deram em boas lanças, mesas foram usadas como trincheiras. As camisas foram feitas de capuzes. Se houvesse imagens aéreas e cobertura ao vivo, seria um pequeno Carandiru. Ou a antiga Febem, já que os guerreiros eram quase todos quase infantes.

Algum namorado ofendido trancou à chave o dormitório onde eu estava até então sem saber de nada do que acontecia. O alarido lá fora me alertou. Foi uma excelente tática dele para impedir que possíveis aliados dos atiradores de urina saíssem para reforçar o exército rebelde lá fora. Encurralado, eu tive uma ótima ideia:

_ Vamos desmontar a fechadura.

Não funcionou, é óbvio. O canivete improvisado, que Fernandinho arrumou, não serviu e meu projeto de arrombador fracassou no nascedouro. As vozes do outro lado anunciaram, heróicas:

_ Saiam da frente que vamos arrombar na bicuda.

Não contavam que metade da parede viria ao chão. Achamos que era um desmoronamento total e morreríamos soterrados, mas que nada. Saímos dos escombros em meio à poeira prontos pra luta. A guerra estava no auge. Os dois grupos frente a frente a rugir. Ameaçavam-se, xingavam, discutiam, cutucavam-se. Ninguém se entendia mais e queriam resolver a contenda com sangue. Até que o Espanhol chegou.

_ Parem com essa porra!

Tinha saído até a Vila pra comprar mais comida na promessa de voltar rápido com a Toytota Bandeirante, na certeza de que lidava com bons rapazes, quase santos. Ledo engano, ledo engano.

O velhote missionário responsável pelo lugar e pelo passeio empunhou um 22 na escuridão. Sim, ele trazia um revólver todo enferrujado. Carecia de um banho de óleo Singer.

As lanças, punhais, pedras e paus foram largados no chão, um a um. Os batalhões se retiraram para seus nichos. Os homens de sangue nos olhos se espreitaram com rancor e baixaram as vistas. Eram garotos de novo. Terminava sem vítimas a longa noite de São Bartolomeu do Mosqueiro.

Corta para uma semana depois, tribunal da Santa Inquisição, bairro da Pedreira.

Os inquisidores reunidos para punir os pecadores da paróquia de forma exemplar. O chefe deles parecia um porco de granja de tão rosado e bem alimentado. Um paranaense seboso. Achei exagero, mas a pena do padre nos colocou na posição de proscritos.

_ Fora daqui, seus marginais, filhos da puta! Não voltem nunca mais.

A boca fala do que o coração está cheio, assim nos ensina São Matheus. Ainda bem que as fogueiras tinham ficado no passado, caso contrário...

O exílio

A Irmã A., o nome dela ainda eu me lembro, nem ligou para história que Simpson contou sobre dar um tempo da nossa antiga paróquia e procurar novos ares. Era uma mentira deslavada dele, evidentemente. Ela nos recebeu de abraços abertos meses depois daquela confusão. Nós éramos o que ela precisava, afinal. Já estava um pouco velha, mas com alguma energia para gastar na vã tentativa de consertar o mundo. Seríamos os braços daquela cabeça inquieta de aprendiz de Irmã Dulce. Tinha encucado em reabilitar um centro comunitário na Cremação e estava toda animada dentro das suas meias-calças. De pobreza e trabalho pesado sem ganhar porra nenhuma, a gente entendia bem. Topamos na hora.

Foi Simpson quem nos levou até ela — os irmãos Dinho e Zito e eu. Ele era nossa liderança natural, um dos rebeldes mais velhos do episódio da Guerra dos Meninos. Negro, mãos calejadas, fã de Bruce Lee e temente a deus. Todos nós órfãos e jogados ao léo depois de anos de bons serviços prestados na antiga casa de deus. Agora éramos exilados em outro bairro na busca de continuar como servos do senhor.

Chegamos cedo no domingo seguinte para inspecionar o lugar e encontramos o Frei e a Noviça, novos personagens, novos amigos. Ela franzina, de seus 18 anos, sorriso fácil, cabelos de mola, gestos discretos e um fiozinho de voz que denotava toda obediência à vida regrada como futura freira. Já ele era um franciscano beirando os 40 anos com suas alpercatas e o tau pendurado no pescoço. Ele me sorriu tão terno, que por pouco não seguro nas mãos dele e começo a oração de São Francisco. Era falante, comunicativo, baixinho, com dentes brancos, pele morena e entradas já aparentes.

_ Foi Deus quem colocou vocês no caminho da Irmã. Agora nosso projeto vai pra frente. Obrigado por virem. Trouxe uma merendinha pra mais tarde, lá no centro, hein? Eu mesmo fiz. Que tal?

Sorrimos. Que carinha simpático, grande coração.

O dia foi de aborrecimento. Simpson estava muito puto com tanto lixo e já xingava, em voz baixa a Irmã, enquanto Dinho coordenava o deixa-disso e virava umas tábuas apodrecidas e Zito dava uma de gerente sem fazer nada. No meu canto, eu me arrependia de ter aceitado estar ali com uma lata de entulho e emporcalhado por inteiro. A noviça e o frei só cochichavam apartados das coisas mundanas. Falavam de céu, anjos e bem-aventuranças, certeza! Seria assim por várias semanas e parecia que era um trabalho interminável.

Muito depois, num dos encontros na casa da Irmã, ela nos surpreendeu: partiria em poucos dias para o interior do Amazonas.

_ E nós?

_ Vocês continuem minha obra, meus filhos.

Nossa guia mor também comentou que a noviça não estava bem de saúde e se afastaria para repouso sem dar muitos detalhes.

Na última incursão ao maldito centro comunitário, fomos apenas Simpson, Dinho e eu. Zito estava de namoro com uma enfermeira muito gostosa e havia debandado para sempre.

Fizemos uma coleta pra comprar coca-la e pão com margarina e sentamos nos monturos de lixo com uma preguiça sem fim. Os pivetes da região começaram a nos espreitar do lado de fora e Simpson os chamou.

_ Chega aí, menor.

O mais velho era maior do que todos nós e estava de bermuda de sarja e sem camisa. Tinha dentes podres e olhar vazio de matador. Os outros eram uns pirralhos. O líder mandou a real:

_ Não adianta limpar que a gente vai trazer lixo pra cá de novo, pode cair fora.

Pedimos calma.

_ Calma o caralho.

Demos a coca e mais uns trocados pro grupelho e obedecemos o gentil convite pra nos retirar.

_ Não eras tu o Chuck Norris?

_ Tu não viste o tamanho dele? Tedoidé.

Fomos a pé pra casa da freira e ela já havia viajado. Havia uma mulher apenas, uma espécie de governanta, que nos ignorou. Contamos as moedas que sobraram e voltamos pra casa de ônibus, sem ânimo nenhum.

Era minha segunda tentativa de reinserção que começava a naufragar. A primeira foi numa paróquia em Castanhal a convite de um aspirante a padre conhecido nosso. Lá passamos um fim de semana para ajudar a organizar um evento de jovens católicos. Mas, no meio da noite, decidimos roubar a cozinha pra comer queijos, pães e hóstias e beber vinho bento. Ninguém reclamou no dia seguinte, mas nunca mais fomos convidados a voltar.

Estávamos agora sem rumo de novo na tentativa de não sucumbir à realidade nossa de cada dia. O grupo havia se dissolvido depois da guerra e era tarde tarde demais pra virar membro de gangue. As quadrilhas de pequenos bandoleiros estavam formadas e os territórios delimitados na Pedreira e Sacramenta. Cada um tinha um apelido amedrontador, uma arma branca e uma lata de spray pra pichar e demarcar seus domínios. Todos ferozes e corajosos, capazes de tudo. Nós só éramos os otários que iam pra missa por não se garantirem no soco nas porradas entre a Terror e a União ou a TP (Turma da Praça). Não queríamos entrar naquele conflito de bairros. Era muito mais violento e já tinham matado o Uga e o Descartável, um a paulada e o outro na bala. Morrer não estava nos nossos planos. Menos ainda no meu.

A Irmã abandonou a gente, aquela desgraçada, a noviça evaporou e o frei idem. Onde estariam agora?

O franciscano e a noviça poderiam oferecer ainda alguma luz. Eles tinham uma vida devotada a Cristo, estudavam a Bíblia, moravam no centro e estavam no caminho do bem. Eram muito melhores do que nós, tinham um futuro, uma vocação, um dom. Ele, então, um dia chegaria ao Vaticano, eu tinha certeza.

Ambos eram ainda uma esperança, aquela duplinha sem graça, mas cheia de boa vontade e de coração bom e boas caras de quem tomava café com leite Ninho de manhã e comia grandes bifes no almoço — se tinha uma coisa que a gente invejava era a geladeira dos missionários. A gente salivava com nossos olhos de crianças famintas a serem salvos pela divina providência.

O começo do fim

Voltamos, Simpson, Dinho e eu, à casa das religiosas. A governanta estava com um humor melhor e mais falante. Pediu ajuda para trocar um botijão de gás e mudar de lugar uma máquina de lavar. Assim o fizemos e engatamos uma conversa. Logo, o instinto humano de espalhar segredos saltou, quando Dinho disse, como quem não queria nada:

_ A Irmã era bem legal. Faz uma falta…

_ Só se for pra vocês. Aquilo era uma peste.

Simpson torceu a cabeça como um cachorro que tenta entender o que o dono fala. Dinho descansou o pé esquerdo em cima da panturrilha direita. Eu descruzei os braços e engoli cuspe.

_ Só tinha cara de santa. Vivia fazendo dessa casa um inferno. Ainda bem que foi embora. Que o diabo carregue, aquela vaca. E aquele lá? Um sonso, vagabundo, enganador com aquela cara de besta. Só tenho pena da menina mesmo. Dela eu gosto, gosto muito. Pobrezinha. Não merecia.

E assim a história começou a ser contada. A cada revelação a gente ficava mais mudo ainda, como se pudéssemos esticar o silêncio feito um elástico. Ela pôs a roupa pra lavar e falava aos berros por cima do barulho da máquina, sem nenhum pudor.

_ Vocês não sabem da missa metade! E tem mais…

Os olhos do Simpson pareciam mais esbugalhados do que o normal e Dinho repetia grunhidos de concordância a cada pausa da mulher, com cabeça de calango a sacudir pra cima e pra baixo. Eu não acreditava e a observava toda ensopada pelo serviço. Os braços balançantes e os peitos grandes marcavam a blusa molhada com mamilos escuros do tamanho de uma bolacha maria, que me perturbavam enquanto ela falava sem parar.

Soubemos por ela que a Irmã partiu não muito depois que flagrou o franciscano atracado na noviça no fundo do quintal. A calça de tergal arriada e a camisa desabotoada enquanto a cobria feito um galo velho. A velhota explodiu de ciúme e partiu pra cima dos dois com uma panela de pressão. O homem tentou argumentar depois de levar um golpe, mas a velhota foi inflexível. Não admitiria aquela safadeza embaixo do seu nariz! Fechou a cara depois de chorar uma noite toda e decidiu voltar para Manaus, não para o interior do Amazonas, como mentiu para nós.

Com a plateia dominada, a governanta despejou o restante do caso enquanto estendia uns cangulões no varal: o frei bem que tentou manter o caso com a noviça e prometeu rasgar a batina para sempre em prol daquela paixão. Queria porque queria casar.

_ ah, mano, ele achava que estava por cima da carne seca. Mas não era bem assim, não.

A mocinha recusou. Aquilo havia ido longe demais. O flagra havia sido um clamor do divino para ela largar o pecado e voltar ao braços de Jesus, seu verdadeiro e amado noivo. Argumentou, em lágrimas, de rosário na mão, enquanto o frei de joelhos lhe abraçava as pernas.

_ Ele quase mata ela.

Depois de muita insistência à amada, todas respondidas com não, o discípulo de São Francisco mostrou quem era, de fato, e a golpeou no pescoço com um caco de vidro que havia guardado no bolso para esta finalidade. Depois fugiu.

A adolescente perdeu muito sangue e estava agora internada fora de perigo de morte. O homem, dias depois, apareceu morto no claustro em que vivia após comer aos prantos três caixas de veneno de rato com pão. Não suportou o risco de ser preso e desmascarado. Culpa pelo que fez com a menina? Nenhuma.

_ Achei foi pouco. Querem almoçar? Hoje tem feijão.

_ Não, não, que isso. Já vamos.

Saíamos de fininho e não falamos durante a viagem de ônibus na volta pra casa. Era sábado de maio, muito quente, o sol varava as frestas das poucas árvores entre Batista Campos e a nossa baixada. O Jurunas-Conceição parecia um chocalho e, apesar de imundo, estava com poucos passageiros pra nossa sorte. Nosso grande líder passou a viagem quieto, olhos fixos na janela do coletivo, soturno. Ele desceu primeiro na Pedro Miranda com uma breve saudação. Dinho e eu seguimos até a próxima esquina, morávamos na mesma rua. Desci e olhei de longe a igreja onde costumávamos frequentar na Pedreira e me dei conta de que aquilo já não era pra mim.

_ A gente deveria ter comido aquele feijão. Tava cheirosão.

_ E não é?

(Vá ouvi Monte Castelo)

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Escritor e jornalista nas horas pagas. Escrevo e falo de ordinárias desimportâncias.